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Ser pai é...

Ser pai é ser alguém, 
Dar à vida continuidade, 
Ser pai, tal como ser mãe, 
É encontrar a felicidade! 
Ser pai é ser aluno, contar, ler... 
Ser professor, corrigir, explicar... 
É ensinar sempre a aprender! 
É aprender sempre a ensinar! 
Ser pai é ser um ídolo, o maior, 
Um super herói invencível! 
O porto de abrigo acolhedor, 
Para a tempestade mais terrível! 
Ser pai é aconselhar, chamar à razão 
E ouvir respostas pouco formais, 
É constatar como essa rebelião, 
Aconteceu entre nós e nossos pais! 
Ser pai é ser um espelho! 
Um exemplo para admirar! 
Ser pai não é ser velho, 
É rejuvenescer e renovar. 
Ser pai é semear uma flor, 
Vê-la germinar e florir enfim, 
 Tratá-la com carinho e amor, 
Ela é orgulho do nosso jardim! 
Ser pai é, pois na realidade, 
Ser assim, um palerma babado! 
Ser avô é pior, é verdade, 
Mas ser pai é meio caminho andado.
(autor desconhecido) 














Convido vocês a assistir esse vídeo emocionante: 



Assista também pelo link: http://www.youtube.com/watch?v=bFG3AOU5CGk 


FELIZ DIA DOS PAIS! 


Fernanda Soares Fernandes - fernandapsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Família e escola: uma parceria necessária



O ser humano se perpetua pela aquisição de conhecimentos, de valores e da cultura de uma geração. Esta aprendizagem acontece na família, aprimora-se na escola e evolui na relação com a sociedade. 

Ao matricular uma criança na escola, os pais esperam que ela aprenda novos conhecimentos, adquira habilidades para desenvolver sua aprendizagem ao longo da vida e a capacite a ser uma pessoa reflexiva, crítica, com capacidade de fazer boas escolhas e ser um bom profissional. 

A escola, por outro lado, possui em sua filosofia e projeto pedagógico a formação de valores éticos em seus alunos, o desenvolvimento de competências e conhecimentos. Sem a parceria entre escola e família, todos estes objetivos não se tornarão realidade, pois o aluno enquanto criança e ainda na adolescência precisa da assessoria dos pais e dos professores para atingir estes objetivos e ter sucesso na vida escolar. 

No Ensino Fundamental as crianças vivem uma fase “esponja”. Tudo o que ensinamos a elas será internalizado, desde que esta ação seja vivenciada com qualidade e sentido. É nesta etapa de escolarização que as crianças precisam aprender a organizar sua mochila, seu material, ter uma postura adequada para sentar e realizar as atividades, desenvolver a atenção e concentração na hora de estudar. 

Os pais podem ajudar muito mostrando aos filhos como fazer, dando espaço para que pratiquem o que lhes foi ensinado e corrigindo posturas inadequadas. Na escola é importante proporcionar um tempo para ensinar as crianças a usarem os materiais corretamente, segurar o lápis, fazer a preensão correta para posteriormente ter uma letra caprichada. Desenvolver o traçado correto de letras e números precisa acontecer nos três primeiros anos de escolarização para que a criança faça uso dela posteriormente. 

São etapas de aprendizagem importantes antes da formalização da aprendizagem e construção da alfabetização. 

Em casa, os pais desempenham papel importante na motivação para a aprendizagem e na construção de posturas que favorecem o desenvolvimento cognitivo, social e emocional. 

Para ajudar a família a desempenhar seu papel no desenvolvimento escolar dos filhos, seguem algumas dicas para os pais enquanto o filho é criança e se encontra no Ensino Fundamental:

- Bons alunos fazem a lição sozinhos. O tema é da criança e não dos pais. Ela deve ser capaz de fazer a tarefa sozinha. Isso não quer dizer que deve se sentir sozinha. 

- Os pais devem acompanhar. Dar o exemplo estimula o filho. Ler junto com os filhos. Fazer as contas da casa na hora do tema de matemática. Escrever um texto, carta, responder e-mails. 

- É para se esforçar, não arrancar os cabelos. Se a criança está cansada, é melhor parar e retomar a atividade em outro momento. 

- Manter uma rotina de estudos. Estabelecer um horário de estudos. Ter um cantinho para estudar ajuda na organização e concentração. 

- O que a criança aprender em termos de valores, limites, respeito a si e ao outro, responsabilidade e hábitos, conhecimento de seus direitos e deveres, ela levará consigo onde quer que vá. 

- À medida que a criança cresce, é importante que comece gradativamente a aprender a tomar conta de si própria. 

- O ideal é, desde cedo, deixar a criança ter relação com diferentes pessoas e incentivá-las nas suas primeiras experiências. 

- A brincadeira é um recurso psíquico importante para o desenvolvimento das crianças. É importante que os pais entrem na brincadeira dos e com os filhos. 

- Respeitar o tempo das crianças. Para desenvolver sua aprendizagem a criança precisa estar pronta biologicamente, psiquicamente e socialmente. 

- A relação entre família e escola é fundamental para garantir a aprendizagem e o desenvolvimento integral da criança. 

- A proximidade entre pais e filhos na hora de aprender desenvolve a autoestima, o respeito, a confiança e favorece a aprendizagem de valores importantes. 

A aprendizagem pode ser formalizada, mas sempre será uma etapa da humanização. A educação aprendida na família e desenvolvida na escola formará os sujeitos que farão a diferença na sociedade. 


Janete Cristiane Petry - janetepp@espacodomquixote.com.br
Psicopedagoga do Espaço Dom Quixote

Dicas para ajudar seu filho a falar corretamente



- Fale devagar; 

- Articule bem as palavras; 

- Peça para seu filho observar o movimento da sua boca; 

- Converse bastante com seu filho; 

- Leia histórias; 

- Dê o modelo correto das palavras. 

Através das situações do cotidiano podemos criar um mundo de possibilidades para desenvolver a fala das crianças. 

Então... VAMOS CONVERSAR!


Daniela Pinto - danielafono@espacodomquixote.com.br
Fonoaudióloga do Espaço Dom Quixote

A fala dos pais com seus bebês



Texto retirado do jornal Zero Hora de 17/02/14 traz pesquisa sobre a importância da fala dos pais no desenvolvimento de seus bebês. 

Boa leitura! 

A fala dos pais com seus bebês 

Falar com os bebês como se faz com os adultos e usar uma sintaxe e um vocabulário complexos permite um melhor desenvolvimento de seu cérebro e lhes servirá para o aprendizado ao longo de toda a sua vida, afirmam os cientistas. 

Na verdade, quando uma pessoa usa voz aguda ou canta consegue chamar a atenção do bebê, mas para que ele aprenda é preferível que se fale com a criança como se fosse um adulto. 

- Não se trata apenas de acumular vocabulário, também é preciso que este vocabulário seja de qualidade - explicou nesta quinta-feira Erika Hoff, psicóloga da universidade Florida Atlantic, durante conferência anual da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), em Chicago. 

- A palavra (dos pais) deve ser rica e complexa - acrescentou. 

Mais ainda: falar com os bebês tem uma importância tal que as crianças que saem de meios em que a palavra é menos elaborada têm piores resultados escolares. Essas diferenças também são evidentes nas estruturas cerebrais das crianças, segundo Kimberly Noble, neurologista e pediatra da Universidade Columbia de Nova York. 

Noble e seus colegas compararam os cérebros de crianças que vivem em contextos desfavoráveis com os que têm pais com estudo superior e encontraram diferenças nos sistemas cognitivos que comandam a sociabilidade e a memória. 

As diferenças mais flagrantes, no entanto, disseram respeito à parte do cérebro que condiciona o desenvolvimento da palavra. 

- Ao crescer, as crianças saídas de ambientes mais abastados dedicam maior parte do seu cérebro a estas regiões - afirmou Noble. 

Anne Fernald, psicóloga da Universidade de Stanford, expôs os resultados de um estudo realizado com um grupo de crianças falantes de espanhol de meios desfavorecidos. Arnald gravou as conversas que as crianças ouviam durante um dia e se deu conta de que as crianças só escutavam conversas periféricas entre seus pais. O verdadeiro aprendizado, segundo ela, provém da palavra dirigida diretamente a eles.


Thais C. Chies - thaispsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Como educar filhos



Uma mensagem especial para os pais, na criação de seus filhos. 

Na educação de nossos filhos 
Todo exagero é negativo. 
Responda-lhe, não o instrua. 
Proteja-o, não o cubra. 
Ajude-o, não o substitua. 
Abrigue-o, não o esconda. 
Ame-o, não o idolatre. 
Acompanhe-o, não o leve. 
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize. 
Inclua-o, não o isole. 
Alimente suas esperanças, não as descarte. 
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê exemplo. 
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor. 
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo. 
Não fabrique um castelo para ele, vivam todos com naturalidade. 
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja. 
Não lhe dedique a vida, vivam todos. 
Lembre-se de que seu filho não o escuta, ele o olha. 
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre outra... 
Ensina-lhe a viver sem portas. 

Autora: Eugênia Puebla 


Fabíola Scherer Cortezia - fabiola@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote
Especialista em Infância e Adolescência

Saber esperar!



Quando vou a algum evento social, onde adultos e crianças precisam compartilhar um tempo no mesmo espaço, gosto de observar o comportamento das crianças. 

Após um período inicial de curiosidade e exploração do espaço e das pessoas que ali se encontram, se a criança não tiver um divertimento infantil, vai se estressar e estressar os adultos. Carregar crianças para um evento adulto e querer que eles tenham um comportamento elegante é exigir muito da paciência dos pequenos. 

Mas, o que percebo, é que muitas crianças não preenchem o tempo de exploração inicial e logo iniciam um processo de aborrecimento e chateação própria e da paciência dos adultos. Sim, porque muitos pais parecem não se importar com a manha, choramingos, cara feia e reclamações constantes. Ignoram as crianças e permitem que este comportamento inadequado se estenda e perturbe o convívio social dos demais. 

Este comportamento de exasperação infantil acontece em encontros familiares, espaços públicos como restaurantes, parques, praia, ... Percebo que as crianças não tem mais paciência para esperar por nada, querem tudo do seu jeito e na sua hora. 

Os franceses, segundo o livro “Crianças francesas não fazem manha", parecem coletivamente ter atingido o milagre de fazer bebês e crianças pequenas não apenas esperarem, mas fazerem isso com alegria. 

Dentre outras habilidades, os que sabem esperar são melhores em concentração, argumentação e não tendem a ruir em condições estressantes. 

Ter filhos que sabem esperar torna a vida familiar mais agradável. Possibilita fazer atividades em grupo, conhecer espaços públicos interessantes e manter o convívio social, mesmo após o nascimento dos filhos. 

É importante proporcionar às crianças atividades culturais, de enriquecimento, como a música, arte, teatro, museus. Mas as crianças não conseguem absorver essas experiências se não tiverem paciência e autocontrole ao invés de estarem ansiosos, irritados e exigindo coisas o tempo todo. Desenvolver a paciência possibilita que a criança desenvolva recursos internos para lidar com a frustração. 

Para desenvolver a paciência é preciso desenvolver a criatividade para poder divertir-se enquanto espera. É importante que saibam brincar sozinhos: “A coisa mais importante é que aprendam a ser felizes sozinhos.” 

Saber esperar enquanto leem um livro, montam um jogo, criam uma história são técnicas fáceis de desenvolver e ajudam as crianças a passar o tempo de forma mais tranquila. 

Nestes mesmos eventos sociais fico fascinada quando vejo crianças brincando sozinhas, fazendo novos amigos, observando curiosas por um tempo significativo algum bichinho que passa ao lado ou, mais impressionada, mantendo uma conversa com algum adulto ou outra criança. 

Pais que conseguem ajudar seus filhos a desenvolverem a paciência tem uma vida mais tranquila e a certeza de que enquanto os filhos crescem estão desenvolvendo habilidades fundamentais para um melhor convívio social.


Janete Cristiane Petry - janetepp@espacodomquixote.com.br
Psicopedagoga do Espaço Dom Quixote

"Paidrastos" (e "mãedrastas")



O Dia dos Pais já passou, mas ainda indico a leitura de um texto de Contardo Calligaris (retirado da Folha de São Paulo) que trata sobre o lugar dos padrastros. 

"Paidrastos" (e "mãedrastas") 

Não encontrei uma estatística que me dissesse quantas famílias, no Brasil, vivem com filhos de casamentos anteriores de um dos pais ou de ambos (talvez um leitor sociólogo possa me ajudar). 

Mas é fácil constatar que muitas famílias são hoje compostas de pais, filhos e, como se expressou uma vez um de meus enteados, de "paidrastos" e "mãedrastas". O tema, claro, mereceria mais do que estas pequenas notas. 

Sobre as madrastas, só o essencial: o homem que tem filhos de um casamento anterior acredita cegamente que sua nova mulher os amará como se fossem filhos dela (ser mãe, para uma mulher, seria um instinto irresistível). O pai de Cinderela, mesmo vivo, não se daria conta de que sua filha era a rival detestada e perseguida pela sua nova mulher e pelas suas enteadas. 

Ora, com várias exceções (claro), para a nova mulher, os filhos do casamento anterior do marido são rivais, irmãozinhos metidos que disputam com ela o amor do "pai" comum --isso vale especialmente quando ela tem filhos de um casamento anterior ou planeja ter mais filhos no novo casamento. 

Mas vamos aos padrastos, que são o nosso tema do dia. 

1) Apesar dos testes de DNA, ser pai continua sendo uma questão mais simbólica que real, ou seja, o pai ainda é aquele que a mãe indica como pai. Uma consequência disso é que os homens são perfeitamente capazes de se esquecer de seus filhos depois de uma separação (a não ser que a mulher continue lhes repetindo, noite e dia, que eles são os pais das ditas crianças). 

Por essa mesma razão, os homens são facilmente padrastos atenciosos - basta que a nova mulher lhes atribua essa função. Agora, por serem "atenciosos", eles não são menos precários: como acontece no caso dos próprios filhos, o laço do homem com seus enteados é subordinado ao laço com a mulher que é mãe deles. Em outras palavras, se o padrasto se separar da nova mulher, dificilmente ele manterá uma relação com os enteados, mesmo que eles tenham se criado com ele durante anos. 

Triste? Talvez. Mas já imaginou a complicação no caso de vários casamentos sucessivos? Que tal um almoço de Dia dos Pais com pai, padrasto 1, padrasto 2 e padrasto 3? 

2) Disse que os homens são facilmente padrastos atenciosos. Justamente, aqui surge um problema: ao redor da educação dos enteados, o padrasto quase sempre descobre que há, entre ele e sua nova mulher, diferenças de valores --que só aparecem na hora de cada um mostrar seus dotes pedagógicos. No eventual conflito, o padrasto está, de fato, quase impotente. 

Primeiro, se ele quiser impor regras, a nova mulher entenderá isso como análogo ao que ela mesma gostaria de fazer com os filhos do casamento anterior do marido --ou seja, ela achará que o marido usa uma severidade seletiva, que ele nunca aplicaria aos seus próprios filhos. 

Segundo, educar implica correr o risco de ser detestado --risco que um pai deve correr sem hesitação; mas o padrasto precisa e quer conquistar a simpatia dos enteados, sob pena de ouvir o fatídico: "Você não é meu pai!". 

3) Os enteados não são anjos. Num primeiro momento, todos eles podem festejar a recomposição de um quadro familiar, seja ele qual for. Logo, os meninos tendem a se tornar paladinos da honra materna e paterna (como é que a mãe se interessa por outro homem que não seja eu? Quem é este cara que quer ocupar o lugar do meu pai?). 

Quanto às meninas, elas oscilam entre três caminhos: lamentam que a mãe, e não elas, conquiste todos esses homens; receiam que, aceitando o padrasto, elas trairiam o pai e seriam desamadas por ele; enfim, bem mais do que os meninos, elas não querem compartilhar a mãe com ninguém. 

A experiência do divórcio dos pais criou jovens interessantes. A sensação de que eles não foram uma razão suficiente para que os pais ficassem juntos produziu, em alguns, uma insegurança doentia para a vida toda, mas, em outros, deixou um fundo de sabedoria melancólica que resiste bravamente às ideias narcisistas mais estupidamente grandiosas. 

Quanto às complexidades da vida numa segunda ou terceira família, está na hora de considerar suas consequências para as crianças e os adultos que delas virão. 

Contardo Calligaris é psicanalista e colunista da Folha de São Paulo


Thais C. Chies - thaispsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Mãe



Existem diferentes mães... 

Mãe de meninos, mãe de meninas, mãe protetora, mãe batalhadora, mãe guerreira, mãe que carrega o filho na barriga por nove meses, mãe que recebe um presente e ganha um filho do coração, mãe que tem um filho especial, mãe que também é pai.

Muitas dizem que ser mãe é padecer num paraíso... Talvez... 

Muitas coisas mudam depois que nasce um filho, são noites e noites sem dormir, primeiro para ver se o filho está bem, se está dormindo, se está molhado, se está bem coberto. Depois levanta à noite para ver se o filho já chegou da balada, se precisa de algo.

Dizem também que ser mãe é ter o coração fora do corpo, é ter um amor incondicional. 

Ser mãe não é fácil, não há receita pronta, tem que dar muito amor, carinho e atenção, mas também tem que dizer muitos “nãos”, tem que impor limites, ensinar regras. Winnicott, famoso pediatra e psicanalista inglês, já dizia que mãe precisa ser “suficientemente boa”.

Enfim, ser mãe é uma caixinha de surpresas...

Feliz Dia das Mães!


Janaína Carloto - janainapsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

O desafio de se ter um autista em casa



Neste Dia Mundial do Autismo não pretendo falar dos sintomas das crianças autistas, nem de como elas aprendem, nem de dicas de atividades, pois para a nossa alegria, os meios de comunicação estão versando muito sobre este assunto nas últimas semanas. 

Pretendo falar um pouco sobre o desafio de se ter um autista em casa... 

Desde que comecei a trabalhar com crianças com Transtorno de Espectro Autista me chamou muito a atenção, o empenho dos pais na busca por soluções, por leituras, por tratamentos. Grupos e ONGs se unem em busca de ideias e respostas para este transtorno. Pais se tornam amigos, confidentes nas suas trocas. As salas de espera dos consultórios viram Grupos de Autoajuda, os facebook’s dos pais viram trocas de receitas sobre o que deu certo neste desafio cotidiano para estimular as crianças autistas. Comportamento louvável de mães incansáveis e famílias que não medem esforços na busca do bem-estar de seus pequenos. Isso sempre me fascinou, mas ultimamente vem me preocupando muito também.

Ao observarmos as famílias de crianças autistas, percebe-se que não sobra vitalidade para as outras questões familiares, que a criança autista e sua causa ocupam um espaço imenso na dinâmica familiar e falta lugar para existir um casal, para existir um irmão menor que seja peralta ou um irmão maior “aborrescente”. Falta lugar para uma mãe que deseja se arrumar ou que deseja ter um futuro profissional reconhecido. Falta lugar para todo e qualquer desejo outro que não a “cura” do autismo. 

A luta pela causa do filho fortalece os pais e os faz criar laços com pessoas que tem o mesmo problema, o que é saudável, em certa proporção. No entanto, aos poucos, se constituem famílias autistas, com pouco ou nenhum contato social outro que não de quem tem a mesma dor. Famílias que se “ensimesmam” em suas casas nos finais de semana porque sair para um restaurante com uma criança com espectro autista é um desafio grande. Pais que não se autorizam a deixar os filhos com outro familiar para fazerem programas a dois, afinal, quem da família se habilitará a ficar com a criança? 

Neste Dia Mundial do Autismo sugiro que possamos refletir sobre as famílias que tem um autista em casa e no quanto o resgate do desejo, da vida social e da vida própria são importantes para o bem-estar da família. Os casais precisam resgatar sua vida a dois, as mães precisam ter vida própria, os irmãos outros precisam de espaço, de brincadeiras e talvez até de tratamentos também. 

Elogio os pais pela incansável luta pelo autismo, mas os desafio a lutarem, concomitantemente, pelo direito de seu descanso, de sua felicidade, de seus desejos. Um desafio grande, eu sei, pois para isso precisarão que os outros familiares deem uma mãozinha, que os terapeutas do filho lhes orientem e que deixem a culpa um pouquinho de lado, mas ao final, garanto, valerá a pena! 

Um bom dia de descanso, um baile a dois, um folga no meio da semana os deixarão recarregados de energia para lutarem novamente pela causa do autismo. Afinal, uma família com um filho autista é muito mais do que uma família com um filho autista e assim precisa ser... É uma mulher com projetos próprios, um homem e seus planos, outros filhos com muitas outras questões. A causa autista é nobre, mas abrir espaço para outras questões na família é tão nobre quanto, e com certeza ajudará os pais a se sentirem mais fortalecidos e unidos. 

Admiro imensamente os pais de crianças autistas e essa contribuição se dá justamente porque sei o quanto dão a vida por essa causa, mas me preocupo com eles, pois precisam de colo, carinho, afeto, lazer, descanso e amor, como todos os outros seres humanos e inicio com este texto uma corrente para que estes pais também lutem por esta causa.


Fabiola Scherer Cortezia - fabiola@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Referências


As pessoas sempre buscam referências e modelos para espelhar-se, independente da idade. No “país do futebol” os jogadores lideram a lista de eleitos, principalmente dos meninos, neste quesito. Famosos, ricos, idolatrados, nem sempre letrados e cultos, acabam virando ícone de moda, penteado, valores. Artistas do cinema e da música que viram um sucesso de uma hora para outra, e nem sempre se sabe porque, vão parar nas páginas de cadernos, pôsteres e são amados pelas meninas. 

Referências para nossas escolhas: cada um destes e destas modelos ocupam um lugar de importância na construção de valores, opiniões e posturas de nossas crianças e adolescentes. A mídia se encarrega de apresentá-los e colocá-los neste pedestal de destaque, assim como os derruba quando não lhe servem mais ou novos “talentos” aparecem. 

Superficialidade e suscetibilidade de valores. Vivemos num tempo onde as coisas mudam rapidamente de importância, nada mais permanece e se mantém como referência. No processo de formação da personalidade pela qual todos passamos a família tem papel fundamental. É o pai e a mãe que deveriam ocupar este lugar de referência para a criança e adolescente, pois serão eles que acompanharão a vida e as escolhas destes jovens. Os “ídolos teen e pop” estão sujeitos a transitoriedade, mas a família permanece. 

É importante dar espaço para que as crianças discutam sobre os modelos apresentados pela mídia e questionem os valores por eles defendidos. Esta abertura para o diálogo possibilita a formação de caráter, a liberdade de expressão e a elaboração de referenciais mais humanos e sólidos na estrutura psíquica. 

Outro dia propus para uma menina de 10 anos que pesquisasse sobre uma jovem que ficou famosa por questionar dogmas e estruturas rígidas em seu país: o Paquistão. A pesquisa era sobre a jovem Malala Yousufzai, de 14 anos, que ousou questionar o governo que impedia as meninas de frequentarem as escolas na sua região. Este confronto acabou resultando num atentado sofrido por Malala, há poucas semanas atrás.  

Conhecer novas realidades, culturas diferentes, e tentar entender como conviver com estas diferenças faz parte da estruturação de valores de uma pessoa. Quanto mais cedo pudermos inserir estas experiências na aprendizagem de nossas crianças e adolescentes melhor será pois eles, muitas vezes, surpreendem pela maturidade com que entendem e refletem sobre estas questões. É importante que os pais, como referência primeira na construção de valores, apresentem aos seus filhos histórias de vida que possam inspirar e servir para refletir sobre nossa postura, escolhas e atitudes. A pesquisa de Sofia resultou numa discussão crítica e responsável. Para finalizar a tarefa propus que escrevesse um pequeno texto que vale a pena ser publicado. 

MALALA 

“Malala, uma menina de 14 anos, líder paquistanesa que teve coragem de escrever num blog sobre o que não gostava no governo e sobre as atitudes do governo. Ela começou a escrever no blog porque as meninas não podiam ir à escola, as mulheres não são respeitadas. Malala sofreu um atentado há algumas semanas atrás. Não se sabe quem atacou Malala, a polícia descobriu 9 suspeitos. Ela está na Europa. Passa bem, já está acordada e já se levantou com ajuda dos médicos. Acho que a atitude dela foi corajosa e perigosa. Perigosa porque ela estava escrevendo contra o governo, para o mundo todo. Corajosa porque escreveu num blog sua opinião sobre o governo.”


Janete C. Petry - janetepp@espacodomquixote.com.br
Psicopedagoga do Espaço Dom Quixote

Filhos do divórcio



O momento da separação de um casal envolve muitos sentimentos, sofrimento, dor, dúvidas e podem ser vivenciados de diversas formas pelos filhos. No entanto, a maneira como os pais lidam com a situação não é sem consequências para seus filhos. Levando em conta esse tema, indico o texto da psicanalista Magda Mello que trata de forma clara e consistente a trama envolvida no processo de separação de um casal e as consequências psíquicas para os filhos. Boa leitura! 

Filhos do Divórcio* 

O tema do divórcio ou das separações entre casais atualmente circula em grande número de famílias, trazendo consigo consequências que poderão afetar os filhos. Mas poderíamos nos perguntar: será que o estado de desentendimento entre pais não abala o filho tão profundamente quanto à separação ou divórcio? Como é que numa casa em que vivem o pai e a mãe em estado de desentendimento a criança poderia não se sentir ameaçada na sua integridade física e mental? Muitos destes filhos são bastante angustiados e chegam a perguntar para os pais: “vocês vão se separar?” Eles gostariam de saber se os pais vão se separar ou continuar brigando. 

Na verdade o divórcio legaliza o estado de desentendimento e leva a uma libertação da atmosfera de discórdia e a uma nova situação para os filhos. Para estes, o assunto inicialmente é misterioso, mas não deve permanecer como tal. De fato, o divórcio é uma situação legal que traz uma solução também para os filhos. 

Por outro lado, estudos atuais nos apontam para a Síndrome de Alienação Parental que se caracteriza por um dos pais afastar os filhos do outro. As mães ou pais que afastam os filhos do ex não estão procurando prejudica-lo. Na maioria dos casos a alienação é feita de forma inconsciente, mas abriga claramente sentimentos de vingança em relação ao outro, em especial quando o(a) ex já se casou ou constituiu uma nova família. Também confundem conjugalidade com parentalidade, acreditando que os problemas do relacionamento dos dois se estendem à criança, que a pessoa acredita estar protegendo. A ideia não é prejudicar o filho, mas dificultar a vida do outro. 

As consequências das ações exercidas sobre as crianças em afastá-la de um dos pais podem ser bastante sérias: 

1) pode levar à psicose ; 

2) a criança poderá mais tarde rebelar-se contra quem detém a guarda e a colocou contra o pai ou a mãe; 

3) repetição do padrão de comportamento (esquizóide) cindido entre o bem e o mau para a sua própria vida futura. Quer dizer: se um dos pais é o bom e o outro o mau, assim ela imprime este padrão na vida com as ouras pessoas. 

O único tratamento para pais e crianças atingidos pelas consequências destes conflitos é a psicoterapia. O problema é que a maioria se recusa a reconhecer estas questões. Portanto, é preciso encontrar um arranjo que resolva a situação da separação sem afastar nem pai nem mãe dos filhos, amenizando os sofrimentos de todos. 

Cabe lembrar, que a construção das imagens dos pais servirão de modelos de identificação e de escolhas futuras do filho em relação a sua vida afetiva. O pai, por exemplo, só assume importância na vida da criança pequena pelo fato de a mãe nomeá-lo e pelo valor atribuído a ele nas suas palavras. A mãe tem valor por si só, mas o pai se reverte em recurso afetivo da mãe, a qual, referida a ele, torna-se o recurso afetivo do filho. Este é o padrão afetivo normal da família. O homem irriga a mulher e esta supre os filhos. Quando isto se rompe todo o cuidado é pouco para que não se destrua a imagem dos pais para os filhos! 

*Autora do texto: Magda Mello – psicóloga, psicanalista, Doutora em Psicologia. Texto retirado do site: www.sig.org.br/artigos/ 


Thaís C. Chies - thaispsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote
Especialista em Infância e Adolescência; Psicanalista em formação pela Sigmund Freud Associação Psicanalítica

Os filhos precisam de um pai? Ou uma mãe lhes basta?



Percebo muitos pais hoje mais participativos no lar. Vemos homens fazendo cursos de casal grávido com interesse em aprender como cuidar de um bebê e auxiliar a esposa, vemos pais indo à reunião escolar de seus filhos, levando-os para as atividades físicas, estudando com eles... Isso cativa as mulheres, mas também assusta. Para algumas mães, é difícil deixar esse pai entrar nessa relação dela com seu filho. 

Penso que a mulher, que já obteve tantas conquistas, precisa refletir que o lugar do Pai é dele por direito e dever. As mudanças sobre o lugar da mulher na sociedade atual e a necessidade de se mostrar independente e autossuficiente trouxeram alguns avanços, mas também alguns problemas na criação de filhos. Vemos mulheres com a crença de que se tiverem um filho por produção independente poderão suprir a criança sendo mãe e pai. Outras vezes, a mulher não dando passagem ao homem para executar sua função de pai, acaba por promover uma referência para a criança de um pai invisível, incompetente e muitas vezes dispensável. 

A imagem do pai é imprescindível para o desenvolvimento psicológico dos filhos. É função paterna apresentar o filho ao mundo. A mãe acalma, acaricia, protege... O pai encoraja, permite ao filho tomar iniciativas e aprender a distinguir entre o certo e o errado e entender as consequências de uma ou outra escolha. 

O pai precisa conhecer o seu filho para perceber até onde ele é capaz de ir e então encorajá-lo. O pai precisa dizer não quando o filho quer dormir na sua cama com a mamãe e ele ou com a mamãe e sem ele. O pai precisa dizer o não que a mãe, muitas vezes, não conseguirá sustentar sozinha. 

A função paterna (que pode ser desempenhada pelo pai ou por alguém outro do sistema familiar, como tio ou avô) é de grande importância na vida de uma criança, pois é o pai que representa a lei para o filho, através da autoridade. É a partir disso que a criança cresce, amadurece, aprende regras e limites. Quando essa função é desempenhada, ensinamos à criança que ela não será sempre a “sua majestade o bebê” que ela tanto deseja, que ela não é a única coisa que sua mãe tem na vida e que a mãe não precisa, nem deve, estar 24 horas disponível para essa criança. É através da entrada do pai nessa relação que a criança aprende, com muito carinho, que não se ganha sempre, que não se tem sempre tudo o que quer, na hora que quer. 

Há na atualidade uma crise da função paterna! Ou o pai não está presente, ou não se faz presente. Ou o pai nem visita seu filho após uma separação ou ele está ali, mas está sem força, sem lei, sem coragem de entrar nessa díade mãe-filho. Os pais, de modo geral, estão cuidando mais dos filhos, trocando fraldas, brincando, jogando com seus filhos, mas estão confusos e se tornam amigos e não mais pais, ou se tornam mais uma mãe nessa relação. O pai não é a versão masculina da mãe, ele é o PAI. Precisa dispor de tempo para conhecer e relacionar com esse filho e isto pode ser feito através de brincadeiras, leitura, conversas, rolar no chão, executar tarefas diárias, mas precisa dizer não, precisa ser autoridade, sem precisar ser autoritário.

Pais, preciso dizer o quanto a presença efetiva de vocês é fundamental no desenvolvimento dos filhos e que, mesmo com mulheres cada vez mais dinâmicas, ativas e esclarecidas, nós, do sexo feminino, embora às vezes queiramos ser, não somos autossuficientes e precisamos, e muito, de vocês como pais de nossos filhos! Afinal, para que possamos efetivamente sermos mães, precisamos alguém que seja pai, ou tudo ficará muito confuso e talvez não consigamos fazer nada direito. 

Aos pais, desejo que sejam sempre super pais, não do tipo inatingíveis, inabaláveis, mas super conscientes da importância da função paterna na construção de identidade de seus filhos! 


Fabíola Scherer Cortezia – fabiola@espacodomquixote.com.br 
Psicóloga do Espaço Dom Quixote
Especialista em Infância e Adolescência

Contando histórias


Se eu perguntar, tenho certeza que você vai lembrar de alguma história que ouvia ou lia quando era criança. Cada um de nós, a sua maneira, lembra de alguma história que foi lida / contada na infância e até hoje guarda muitos detalhes. 

Certamente em algum momento de sua vida você teve interesse por livros, leitura e figuras. Alguns de nós mantivemos o hábito, outros não. 

O que sabemos é que a leitura, além de fundamental para o desenvolvimento intelectual das crianças, é também um aliado simples e gostoso de praticar também em casa através da contação de histórias. 

Mas de que contação estamos falando? Daquelas que a avó fazia, ou o pai antes de dormir, ou quando ficávamos com medo e a mãe contava até pegarmos no sono. É só vasculhar na memória, certamente encontraremos um momento desses no passado. 

Já se sabe o poder da fascinação que a contação de histórias produz nas crianças. Mas, além desse encantamento pelo maravilhoso ou conto de fadas, as histórias contribuem para o simbolismo e “resolução” dos conflitos que são comuns a todos. Falamos nesse caso da difícil tarefa de crescer e amadurecer no desenvolvimento humano. Nessa fase de diferenciação entre real e fantasia, razão e imaginação, os contos permitem que as crianças transportem para a realidade aquilo que é contado, reformulando a partir da sua escuta a melhor forma de utilizar os ensinamentos / palavras das histórias. Permite também às crianças imaginar-se em outra carcaça, outro tempo. Possibilita o ir e vir saudável, fundamental para o desenvolvimento, onde as crianças conseguem imaginar-se dentro dos contos e ao mesmo tempo reconhecê-los apenas como um mundo fantasioso além da sua própria realidade, ou até mesmo como um escape da realidade que nem sempre é tão divertida e colorida. 

A nós adultos, cabe a tarefa de sermos porta-vozes dessas fantasias disponíveis para o mundo das crianças. E como faremos isso? Através de uma boa leitura, de um bom livro (aquele que você também tenha prazer em estar lendo), interesse e disponibilidade para apresentar um mundo novo. 

Os contos permitem que as crianças enfrentem seus medos, conflitos e angústias, seja com o auxílio das bruxas, vilões ou monstros. Como também renovam as esperanças através de bons atos, amor e carinho com os heróis e mocinhas. 

Mário Corso e Diana Corso (2006, p. 17) em Fadas no Divã falam que “(...) ouvir histórias é um dos recursos que as crianças dispõem para desenhar o mapa imaginário que indica seu lugar, na família e no mundo”. 

A contação de histórias, portanto, ajuda a pensar sobre nossa existência, nossos comportamentos e num mundo melhor. Claro que elas não trarão felicidade ou a solução dos problemas, nem tornarão o mundo melhor. Mas com certeza ajudarão nessa difícil jornada. Com isso, as crianças passam a enxergar outros caminhos, outras idéias e novos personagens para seus enredos. 

Aos pais, contar histórias, portanto, vai muito além de conseguir fazer o filho dormir ou deixá-lo quietinho. Contar histórias aproxima os relacionamentos, estreita as ligações maternas e paternas. As histórias contadas com amor e carinho, com gosto, estimulam a criatividade, a inteligência, a criação, o pensamento e principalmente: o querer e o sentir. 

Exercite essa arte. Escolha um livro que você goste ou que conheça a história ou que gostaria de apresentar para seu filho. Crie um ambiente acolhedor, tranqüilo. Faça desse hábito um evento, um momento em família. Utilize desse tempo para fazer parte de um mundo de fantasias. Pegue seu filho no colo, mude o tom de voz, permita que ele veja você sendo outros personagens e veja-o como participante dessa aventura. Saboreie a alegria e entusiasmo que as histórias produzem nas crianças. Utilize dos contos também para passar aquele recado que está difícil de ser escutado, falar sobre assuntos sérios, educativos ou simplesmente contar uma história. Afinal, contar história nem sempre precisa passar uma lição. 

Depois disso, me conte uma história sobre essa experiência. 

Referência utilizada:
CORSO, D. L. e CORSO, M. Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006. 


Caroline Ciceri - carolinepsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote 

Missão Pais: brincando junto


Como brincar com seu filho quando se chega exausto após um dia trabalho? E ainda ter que realizar as tarefas de casa – jantar, louça para lavar, organizar a casa e dar atenção aos filhos? Complicado não? Mas sabe aqueles 15 minutinhos que tiramos para ler uma revista no sofá ou assistir televisão? Que tal sentar-se no chão e pedir que ele(a) sente-se com seus brinquedos próximos pra irem trocando ideias? 

Sabe que funciona muito bem, além de relaxarmos conseguimos dar atenção e com isso resgatar brincadeiras lúdicas com brinquedos feitos à mão, além de despertar a criatividade, já que hoje em dia, elas não têm tanta destreza manual como antigamente. Com isso, também trabalhamos o conceito de cooperação, parte essencial para se relacionar com as outras pessoas e construir relacionamentos significativos. Aprende a respeitar os outros e a controlar suas próprias necessidades imediatas e impulsos. O fato de aprender a cooperar é essencial, mas não significa que é fácil. 

Poder participar de momentos lúdicos com as crianças permite entendê-las melhor, identificando os seus valores, preocupações e sentimentos em relação a situações específicas da sua vida. Além de proporcionar o desenvolvimento de habilidades como a coordenação motora, a criatividade e a inteligência. Ensina também comportamentos adequados e potencialmente úteis nas interações que a criança estabelece com seus pares - como a empatia, a auto-confiança, estratégias para resolução de problemas, entendimento das regras e aprende a respeitá-las e a lidar com suas próprias frustrações quando perde uma partida.

É muito bom quando esses momentos entre pais e filhos podem ser recheados de afagos, longos abraços, brincadeiras inventadas e brincadas juntos, estimulando e fortalecendo a integração físico-psicossocial. 

Aqui no Espaço Dom Quixote, oferecemos esses momentos de fortalecimento de vínculos familiares. 

Fique ligado na programação das Oficinas Pais e Filhos.


Priscila Straatmann Morél - priscilato@espacodomquixote.com.br
Terapeuta Ocupacional e Psicomotricista do Espaço Dom Quixote

Percepção do estado nutricional da criança no contexto familiar



Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstram que o excesso de peso atinge aproximadamente 42 milhões de crianças menores de cinco anos de idade. Atentando a este alarmante dado, entende-se que a prevenção da obesidade nesta faixa etária seria a melhor alternativa para desacelerar a incidência desta doença. 

Sabe-se que as intervenções bem-sucedidas dependem do envolvimento dos pais, uma vez que estes são modelos de conduta para seus filhos. São eles as figuras responsáveis pela alimentação e nutrição da criança, no que diz respeito à quantidade e/ou qualidade da dieta. No entanto, estudos indicam que a falta de envolvimento dos pais no tratamento nutricional seria um dos maiores entraves no sucesso da intervenção. É sugerido que essa ausência de comprometimento dos pais tem como base justamente a falta de percepção do peso real da criança e suas possíveis implicações na saúde dos filhos a curto e longo prazo. 

O estudo de Tenorio e Cobayashi (2011) teve como objetivo revisar as pesquisas atuais sobre a capacidade dos pais para perceber o peso corporal dos filhos, as crenças relacionadas ao peso e os fatores que influenciam esta percepção. Os achados centraram-se no fato de que a percepção dos pais quanto ao peso dos filhos é baixa, independente da região em que residem, do nível socioeconômico e do grau de escolaridade. Muitos pais de filhos com excesso de peso não reconhecem ou não consideram que este seja um problema de saúde. Com relação aos fatores que influenciam a percepção, destacam-se a idade das crianças (quanto menor, menos se percebe o excesso de peso); o sexo (o peso das meninas é percebido corretamente); a baixa escolaridade e o não entendimento das curvas de crescimento utilizadas pelos profissionais de saúde. 

Os pesquisadores concluem que a falta de consciência do excesso de peso e dos fatores de risco relacionados a esta condição dificultam o sucesso da prevenção e tratamento da obesidade infantil. Referem que a prevenção é um método efetivo para o controle da obesidade nesta faixa etária, porém, é necessário um melhor entendimento dos fatores associados ao comportamento dos pais para estimular um comprometimento maior no tratamento da obesidade. 

Fonte: TENORIO, AS & COBAYASHI, F. Obesidade infantil na percepção dos pais. Rev Paul Pediatr 2011;29(4):634-9. 


Daniele Santetti - danielenutri@espacodomquixote.com.br
Nutricionista do Espaço Dom Quixote 
Mestranda em Saúde da Criança e do Adolescente –UFRGS 

Filho na adolescência, e agora?


E agora é mais um daqueles momentos em que você não sabe o que fazer. Como quando soube que estava grávida, quando descobriu que seria pai. Quando o seu filhote tão indefeso foi para a escola, e o pior, ficou sozinho. Resmungou, mas não olhou para trás. Depois de cada momento desses, você respirou fundo e continuou. Afinal, são etapas que todos os pais passam e passarão. Agora você vê seu filho, sua responsabilidade tomando novamente novas formas, desafiando, brigando e pedindo para voar. Aí você se pergunta: e agora? O que está acontecendo com meu filho que acompanhava e concordava com tudo?

Pois bem, ao mesmo tempo em que você se pergunta isso, seu adolescente se olha no espelho e vê nítidas mudanças que não se deixam esconder. Procurando no seu desespero, no seu desencontro, uma maneira de descobrir o que fazer com isso tudo. Pois ele sabe, sem você ter percebido, que já perdeu o seu encanto infantil. Ao mesmo tempo em que família, sociedade, escola e amigos começam a lhe cobrar maturidade: “você não é mais criança”. Um misto de deixar de ser e começar a se tornar toma conta, nenhuma responsabilidade pode ser assumida, assim como nenhuma atitude infantil é aceita. É preciso ter atitudes maduras. Mas que atitudes maduras são essas que se espera de um adolescente de 15 anos? Reformularei a questão: como você foi aos 15 anos? Teve uma adolescência plena e feliz sempre? Teve apoio de seus pais? Pôde questionar sobre as milhares questões que seu corpo pedia resposta? Teve toda a liberdade que queria?

Devemos desmistificar a ideia que nós adultos criamos sobre a adolescência como uma fase plena e feliz, de liberdade total e onde não há preocupações. Claro que há preocupações, vejamos as mudanças físicas, psíquicas e as decisões que guiarão toda a trajetória adulta e por onde criamos nossos parâmetros de vida.

Criam-se ideais de felicidade que naturalmente não são encontrados pelos adolescentes, gerando frustrações por não saber encontrar esta felicidade e este gozo que é obrigatório. O adolescente revolta-se porque quer ser feliz. Enfrenta, pois lhe mandam tomar uma atitude. Junto a tudo isso se deixa de escutar um pedido de atenção: “ou me deixam crescer ou cuidam de mim”.

Aos pais, cabe a tarefa de lembrar sua adolescência, suas dúvidas e medos. Reconhecendo que agora é um daqueles momentos de mudança, de transição. Uma fase como outra qualquer, fantasiada de festa, mas coberta de insegurança.

Ao adulto cabe olhar para si próprio, tendo a capacidade de abrir os olhos, os ouvidos e o coração. Pois são essas ferramentas que os aproximarão daqueles que se sentem rejeitados do resto do mundo.

Deixemos de instruir apenas o que parece óbvio e prático: não use drogas, use camisinha, espere, comporte-se como adulto. E passemos a pensar nas instruções mais fundamentais: os pais estarão sempre ao seu lado, não tenha pressa, descubra aquilo que você goste. E goste.

Demonstre ao adolescente o carinho que não foi embora com a infância, mas que reconhece a necessidade de sair debaixo da asa (aos poucos, já que não é tarefa fácil).

Bons adultos e adolescentes felizes são formados dentro de casa, com o suporte familiar e com tranquilidade para perceber que qualquer fase, problema ou medo pode ser superado.

Devemos lembrar e respeitar o momento que muitas vezes não é totalmente feliz. De fato não estamos sempre felizes. Portanto, abra espaço para o diálogo, para a aproximação, para o não e para a revolta com o mundo. Pois é neste momento que descobrimos e avaliamos o que é bom, ruim, justo e injusto.

Sejamos solidários, abertos. Respire fundo, dê a mão, um abraço. Não tenha medo de dizer não, seja firme. Mas esteja aberto a persuasão. Não feche os olhos, mantenha-se atento a tudo e a todos, pois você ainda é responsável por aquilo que cativas.

Abra o coração, seja flexível, amigo. Leve, busque, acompanhe, saiba onde está. Você, apesar de qualquer dificuldade deve continuar, acreditar, amar. Pois você é acima de qualquer coisa, espelho mais fiel que ele pode ter.

Este não é um manual, um guia e não tenta responder nenhuma questão fielmente. Busca apenas abrir novos pontos de interrogação. Outra forma de pensar a adolescência e o adolescente, pois este é um assunto interminável. Uma maneira de tornar o assunto mais leve e simples.

E agora? E agora só você pode responder essa pergunta.


Caroline Ciceri - carolinepsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Missão Pais: atividades sensoriais com os filhos


O seu filho tem o hábito de brincar com objetos de diferentes texturas ou com brinquedos prontos vindos da loja? Você sabia que brincar é muito importante para a constituição do sujeito e que o brincar permite uma reorganização interna que interfere no desenvolvimento psicológico, intelectual, emocional, motor e social das crianças? E ainda mais, brincar com o corpo e com sentidos permite aprimorar as funções neuropsicomotoras, além de fortalecer conexões neurais. É no brincar que a criança aprende a ter controle corporal, percepção espaço-temporal, ter atenção e a se socializar com as outras crianças e assim respeitando o espaço do outro.

O brincar é muito importante, brincar com cinco sentidos (olfato, audição, visão, tato e paladar) e com sensações proprioceptivas (informação sobre o que os músculos estão fazendo e como se movimentar) e vestibulares (informação sobre equilíbrio, postura e controle, atenção e regulação emocional) que possuímos e assim aumentar a organização das sensações e o uso eficiente do corpo no ambiente.

Você já pensou em sentar no chão e brincar com gel, massa colorida, cantar, amassar, rolar? Se sim, continue com essa prática. Se não, deixo vários exemplos de atividades:

- Táteis: brincar com areia, água, terra, grama, argila, bolinhas de gel, macarrão e grãos diversos, massinha, brinquedos de consistências e texturas diferentes. Misturar farinha e água, bolinhas e macarrão com corante.

- Visuais: brinquedos coloridos e com contrastes.

- Auditivos: brincar com instrumentos musicais, cantar.

- Olfativos/gustativos: cheirar, provar e preparar alimentos com consistências e sabores variados.

- Proprioceptivos: brincadeiras de puxar, carregar, amassar, lavar e esfregar. Que tenham pressão sobre o corpo como mergulhar, almofadas, rolar sobre elementos macios, apertar ou abraçar um ursinho ou almofada, deitar com edredon ou cobertor pesado, abraçar com toque profundo junto com as almofadas, deitar em cima ou em baixo do rolo ou bola suiça (bobath).

- Vestibulares: brincar de rodar, balançar, pular, correr, escalar, andar sobre almofadas, entre outros. A pracinha é excelente.

Bom divertimento!


Priscila Straatmann Morél - priscilato@espacodomquixote.com.br
Terapeuta Ocupacional e Psicomotricista do Espaço Dom Quixote

Onde vivem os monstros?


Onde vivem os monstros? É esta a primeira interrogação que o filme de Spike Jonze (Where the wild things are, EUA, 2009) nos faz quando decidimos por assisti-lo. Mas, de que monstros estão falando? Do real, do imaginário, do interno ou do externo?

Aos poucos encontramos com Max, personagem principal do filme, a angústia que todos nós adultos sentimos em algum momento de nossa infância e por onde todas nossas crianças também passarão. Deparamo-nos com monstros que nós mesmos criamos em nosso interior: medo, raiva, angústia, solidão, carência e, principalmente, o crescimento, que traz junto as responsabilidades e conseqüências de nossas ações.

Aos poucos vamos reconhecendo em cada monstro um pouco de nós mesmos. Recordamo-nos de nossas angústias infantis e de como elas pareciam grandes, feias e monstruosas, e de como lutamos arduamente com e contra cada uma delas. Assim como a frieza de termos conseqüências para nossas ações e as responsabilidades que elas repercutem.

Mas, ao crescer, acabamos esquecendo ou fingimos esquecer que estas angústias apenas se modificam ou tomam outras proporções, mas que continuam nos acompanhando. Passamos a aprender a conviver com nossos monstros e assim “seguir adiante”.

Ao acompanhar a trajetória de Max acordamos e revivemos nossos monstros e nos damos conta de que todos nós, em alguma etapa de nosso crescimento também sentimos medo e que de alguma forma tivemos alguém para acalentar esses questionamentos, ou como no caso de Max, encontramos sozinhos uma maneira de encarar esses monstros.

A nós adultos cabe a árdua tarefa de acolher os monstros de nossos pequenos e mostrar não somente a eles, mas a nós mesmos, que os monstros interiores fazem parte de nossa constituição. E que será a partir de todos estes sentimentos que poderemos reconhecê-los e torná-los parte de nós, descobrindo o quanto nos representam.

Com um roteiro simples, figuras grandiosas e silêncios expressivos nos identificamos com um filme duro, sincero e um tanto sensível. Talvez sincero até demais, mas ainda assim muito verdadeiro.

Onde vivem os monstros mostra aos adultos o lado difícil de crescer e todas as angústias que essa fase pode oferecer. Mas que possibilita ao olharmos com mais calma e proximidade que os monstros não são tão feios, grandes ou perigosos assim. São apenas estranhos buscando espaço, pedindo ajuda.

Portanto, que possamos dar lugar ao meu, ao teu, ao nosso estranho. Que possamos lembrar nossa infância e nossos medos e desta forma não desvalorizar os monstros daqueles que hoje passam por aquilo que também passamos. Que pelo desconhecido temem o crescer e todas as suas responsabilidades e conseqüências. A nós, como bons monstros, cabe a tarefa de acolher e cuidar de nossos Max da melhor maneira possível, sem proibi-los de descobrir seus próprios monstros.

E você, sabe onde vivem os monstros?


Caroline Ciceri
Psicóloga do Espaço Dom Quixote

Felicidade como direito garantido


Acessei esse texto da jornalista Eliane Brum e o indico para leitura. É um excelente texto para refletir a respeito das relações pais e filhos e da subjetividade na atualidade. Boa leitura!


MEU FILHO, VOCÊ NÃO MERECE NADA: a crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso são pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Texto retirado do endereço eletrônico:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI63840-15230,00-ARQUIVO+ELIANE+BRUM.html


Thais C. Chies - thaispsico@espacodomquixote.com.br
Psicóloga do Espaço Dom Quixote